ALMANAQUE VIRTUAL APRESENTA

O Mundo em Mapas 02/3

 


 

 

 


Cosmologia Medieval
 

O MUNDO EM MAPAS

 

Continuação

 

O GRANDE "MERCATOR"

A figura ao lado, uma obra de Franz Hogenberg, homenageia o ilustre geógrafo holandês, Gherard Kremmer ou Kaufmann  (Kaufmann- significa mercador, na forma latina mercator) , natural de Rupelmonde, Flandres (hoje na Bélgica),em 5 de março de 1512), pelo calendário juliano uma sexta-feira; dentre os seus inúmeros feitos, como veremos com detalhes, destaca-se para a cartografia, a chamada modificação na projeção cilíndrica que permitiu, seu largo emprego no traçado das cartas marítimas, com grande vantagem. A proposta do nosso Almanaque Virtual, nas próximas linhas, será o de apresentar um resumo , ou um "verniz" da fabulosa história desse cientista, mesmo porque , afiançam os seus admiradores mais acreditados, que todo o cuidado é pouco quando comenta-se a vida de Mercator, pois os seus biógrafos andaram misturando verdades e mentiras.

Por tudo o que fez, trata-se, provavelmente, do maior cartógrafo e geógrafo do século XVI e de toda a chamada Idade Moderna.   Freqüentemente, por uma razão ou outra, quando consultamos obras didáticas especificamente sobre cartografia, há menção especifica e centralizada no método que desenvolveu, conhecido popularmente como "Projeção Mercator" . Contudo, o seu legado é bem mais amplo; numa época conturbada, preconceitos políticos e religiosos proliferavam, e, propositalmente, para não incorrermos em deslizes desnecessários e comprometedores, fugindo do real objetivo desta reportagem, procuramos ao máximo, centralizar o relato no essencialmente cientifico.

 Read about GERARDUS MERCATOR in the LoveToKnow 1911 Encyclopdia

Mestre em ciências humanas, filosofia e teologia pela Universidade de Louvain, ampliou posteriormente os conhecimentos, aprofundando-se em matemática e astronomia, para depois fundar um estabelecimento de estudos geográficos; sendo dinâmico e muito empreendedor, com a vantagem de uma base acadêmica sólida,  transforma-se em um exímio desenhista e fabricante de instrumentos cartográficos e astronômicos.

Mercator, como se diz "sempre antenado", mantinha contato com um grande número de cientistas contemporâneos, com destaque para o inglês John Dee, um seu aluno de matemática.

A sua primeira obra divulgada , consta ter sido editada em 1537, um mapa em pequena escala da Palestina; depois  num trabalho de aproximadamente três anos, da agrimensura ao desenho e à gravação, da Exatíssima descrição da Flandres (Exactissima Flandriae descriptio), o limiar de uma brilhante carreira profissional.
 

Para ampliar clique na figura

Há um dito popular que diz "Para premiar um bom trabalho, mais trabalho"; o sucesso de Mercator foi tão grande que o imperador Carlos V encomendou um globo terrestre. As encomendas não pararam por ai; quando, em 1541, o globo foi entregue, o mesmo imperador encomendou-lhe um conjunto de instrumentos de desenho e agrimensura, e um relógio de sol.Com a proteção do imperador Carlos V, publica provavelmente em 1554, um mapa da Europa, consolidando de vez o seu prestigio de grande cartógrafo, sendo nomeado cosmógrafo do duque de Cleves, fixando-se em Duisburg.

Fiel ao estilo ptolomaico, no seu primeiro mapa-múndi datado de 1538, sendo aliás, o primeiro a registrar as Américas, do Norte e do Sul, cria uma visão personalistica, e no seu mapa da Europa, em 1554, o Mediterrâneo perde o seu formato alongado, sendo desenhado apenas com 52 graus de comprimento, aproximando-se bem das suas medidas.

Sendo adepto e estudioso do estilo caligráfico itálico, inova também quando passa a gravar nos mapas essa formatação para as letras.

Em 1578, publica o seu primeiro Atlas, com o título Nova et aucta orbis terrae descriptio ;obra pioneira de provavelmente 448 páginas in-fólio, ou seja, 56 páginas de impressão, pela dobradura em duas iguais, constituindo 4 páginas ( (56 X 2) X 4) =  448; nela, aplicando todo o seu potencial de matemático e profundo conhecedor de astronomia, referenciando e conciliando fatos aos fenômenos das ocultações, eclipses solares e lunares, do principio do Mundo até ao ano de 1568,  corrigiu as datas de acontecimentos históricos (Cronologia de Mercator).

Para que não se cometa injustiças, é bom registrar que Mercator aboliu dos editores anteriores a discrepância de alterar a grande obra do mestre Ptolomeu procurando ajustá-la aos entendimentos e assessorias técnicas de cada editor; oferecendo 27 mapas de autoria do próprio Ptolomeu, sem "maquiagens", dando entretanto, a sua versão textual.

Nesse ínterim, ao tratarmos de cartografia, fazendo justiça e "honra ao mérito", há uma necessidade imperiosa de considerar os trabalhos  e os serviços prestados por Abraham Ortelius, por sinal amigo de Mercator ; nada do que pesquisamos suplanta a riqueza e a contundência narrativa, pelo menos ao nosso conhecimento, encontrada na obra de Daniel J. Boorstin - Os Descobridores - (DE COMO O HOMEM PROCUROU CONHECER-SE A SI MESMO E AO MUNDO), um lançamento no Brasil da Civilização Brasileira (1989), tradução de : Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de: José Manuel Garcia.

Página 257

"O empreendedor jovem amigo de Mercator, Abraham Ortelius (1527-1598), nunca freqüentara uma universidade, mas possuía abundantes talentos de homem de negócios. Ortelius também foi perseguido pela Inquisição. Enquanto as províncias meridionais dos Países Baixos, onde ele nasceu no seio de uma família católica, permaneciam predominantemente católicas, o calvinismo alastrava nas setentrionais. Filipe II, re de Espanha e soberano conquistador dos Países Baixos, continuou a política fanática de Isabel, a Católica. O Tribunal do Sangue do Duque de Alba, que iniciou o seu trabalho em 1567, podia convocar quem entendesse para responder a acusações de heresia, o que significava igualmente deslealdade para com a coroa espanhola, e o não comparecimento perante o Tribunal acarretava a confiscação de todos os bens do acusado. Impressores e editores eram sempre suspeitos, porque a palavra impressa constituía um veículo notório de heresia.

Quem poderia adivinhar o que a Inquisição consideraria heterodoxo ou obsceno? A simples venda da gravura do retrato de um herético suspeito como Erasmo era, em si mesma, um delito grave. Qualquer mapa grande, coberto de motivos decorativos, cotas de armas e fronteiras políticas e eclesiásticas, proporcionava grato terreno de caça ao inquisidor. Naquele tempo, era necessária coragem para imprimir ou publicar fosse o que fosse em Antuérpia.

Ao contrário de Mercator, Ortelius chegaria à cartografia não através da matemática e da astronomia, mas sim por ter lidado com mapas como mercadoria. Aos 20 anos, já ilustrava mapas e fora admitido na respectiva guilda. A fim de manter a mãe e as irmãs após a morte do pai, tornou-se negociante. Comprava mapas, que as irmãs montavam em linho, e depois coloria-os para os vender em Frankfurt ou em qualquer outra feira. Com a expansão do seu negócio, começou a efetuar circuitos regulares pelas Ilhas Britânicas, Alemanha, Itália e França, comprando os mapas localmente produzidos e vendendo o seu próprio produto ilustrado. Reunia desse modo os melhores mapas em uso em toda a Europa, que levava para a sua sede em Antuérpia.

Naqueles tempos conturbados, os mercadores de Antuérpia tinham necessidade premente de mapas atualizados e merecedores de confiança, dos quais constassem os resultados mais recentes das guerras religiosas e dinásticas; sem eles, não podiam planejar as rotas mais curtas e menos arriscadas para as suas mercadorias. Um dos mais empreendedores, Aegidius Hooftman, prosperara graças a ter-se mantido bem informado e colecionado no seu escritório, conjuntos das melhores cartas e mapas em uso, de todos os tamanhos e feitios. Os mapas grandes só podiam ser utilizados desenrolando-os. Mas as letras pequenas das manejáveis plantas das cidades tornavam os nomes  dos lugares quase ilegíveis. Considerando tal miscelânia de mapas um contratempo, Hooftman e outro mercador seu amigo persuadiram Ortelius a procurar, para eles, os mapas mais dignos de crédito, com dimensões uniformes. Todos os mapas escolhidos teriam de ser impressos numa folha simples de papel com cerca de 70 cm x 60 cm, que era o tamanho maior produzido pelos fabricantes de papel desse tempo. Depois 30 desses exemplares podiam ser unidos e encadernados como um livro, num formato simultaneamente conveniente para a sua arrumação e fácil para o seu uso.

Quando fez isso para Hooftman, Ortelius criou, sem se aperceber, uma nova espécie de livro, o primeiro Atlas geográfico moderno. A idéia pareceu tão boa que ele preparou mais livros do mesmo gênero para o mercado geral. Ajudado pelo seu amigo Mercator, reuniu os melhores mapas, mandou reduzir mapas em grande escala às dimensões padrão que adotara e obteve a colaboração de Christophe Plantin, outro amigo, cuja tipografia de Antuérpia estava a fazer alguns dos melhores trabalhos da Europa. Theatrum orbis terrarum ("A representação do Mundo"), o primeiro atlas moderno, saiu do prelo antuérpico de Plantin em 20 de maio, de 1570, após 10 anos de trabalho.Consideravelmente maior do que o volume de Hooftman, continha 53 mapas calcogravados, juntamente com um texto descritivo. Uma nova característica, era uma lista do editor com o nome dos 87 autores dos mapas consultados ou copiados. Foi o arauto de uma nova era de desenvolvimentismo, em que qualquer indivíduo podia aduzir acréscimos ao fundo de conhecimentos.

Os cartógrafos já não precisavam de atribuir a paternidade das suas obras a Ptolomeu para as tornarem respeitáveis.

O Atlas de Ortelius teve um êxito comercial imediato. Passados 3 meses, impôs-se uma segunda edição, e depois o texto latino foi traduzido em holandês, alemão, francês, espanhol, italiano e inglês. Paor morte de Ortelius, em 1598, existiam 28 edições, que tinham subido para 41 em 1612. o próprio Ortelius conquistou fama e fortuna e aconselhou os melhores geógrafos da época enquanto viajava pela Europa. Depois de atestada a sua ortodoxia católica, foi nomeado geógrafo do rei Felipe II de Espanha.

O correio de admiradores chovia. "Ornelius, vós o eterno ornamento do vosso país, da vossa raça e do universo", elogiava exaltado, um leitor, "fostes educado por Minerva (...)

Com a sabedoria que ela vos comunicou, revelais os segredos da Natureza e mostrais como esta magnífica estrutura do Mundo foi adornada com incontáveis cidades e vilas pela mão e pelo labor dos homens, e pelo mando dos reis (...) Por isso todos erguem o vosso Theatrum aos píncaros do Céu e por ele vos desejam bem." O próprio Mercator louvou "o cuidado e a elegancia comn que embelezastes os labores dos autores, e a fidelidade com que expusestes a verdade geográfica, tão corrompida por cartógrafos". Finalmente, testificou Mercator., Ortelius reunira a melhor e mais recente informação a respeito de toda a Terra num prático volume portátil, e por um preço razoável. Ortelius mantinha o seu trabalho atualizado acrescentando-lhe mapas que recebia de agentes e admiradores.

O frontispício do Atlas de Ortelius apresentava pela primeira vez quatro figuras humanas simbólicas, uma para cada um dos continentes, que passavam a incluir a América. Os das edições de Ptolomeu tinham, naturalmente, apresentado apenas três, uma para a Europa, outra para a Ásia e outra para a África. A disposição geral do livro era a costumada - primeiro um mapa do Mundo chamado Typus orbis terrarum, depois um mapa de cada continente conhecido e a seguir mapas especiais de países e regiões.

Ainda não totalmente liberto de Ptolomeu nem de folclore, Ortelius continuava a apresentar o lendário continente austrar ptolemaico, que se estendia a partir do pólo sul, e sempre, claro, o reino do irreprimível Preste João. Apesar disso, contribuiu muito para libertar os autores de mapas, e todos os europeus letrados, dos erros mais grosseiros de Ptolomeu. Escreveu a Mercator, para a Alemanha dando-lhe a notícia de que Sir Francis Drake partira numa expedição, ao que Mercator respondeu que os Ingleses tinham igualmente mandado um tal capitão Arthur Pitt explorar a costa setentrional da Ásia. O Atlas estava, mais do que nunca, a tornar a procura de conhecimento num empreendimento  cooperativo.

Esses cartógrafos, impressores de mapas e negociantes pioneiros, levaram os descobrimentos de Colombo e Vesúcio, Balboa e Magalhães, ao povo, cujas vidas tais descobrimentos transformariam. Antes da prensa impressora, houvera grandes tradições de cartografia na Europa. Os cosmógrafos produziam grandes obras para ornamentar palácios e bibliotecas, enquanto os cartógrafos forneciam aos pilotos os portulanos de que eles precisavam no mar. Agora, um novo formato, o Atlas, em muitos tamanhos e preços, podia informar quantos queriam aprender.

O próprio Mercator tinha planos para um Atlas em 3 volumes, incluindo os melhores mapas de todo o Mundo. Conseguiu publicar duas partes antes da sua morte, ocorrida em 1594, e a obra foi, enfim, completada pelo seu filho Rumold, com o título antiquado e extravagante que Mercator escolhera: Atlas sive cosmographicae meditationes de fabrica mundi et fabricati figura ("Atlas ou meditações cosmográficas sobre a criação do universo e do universo como foi criado"). Dentro de poucos anos, estavam publicadas 31 edições in-fólio. Embora Ortelius já tivesse publicado um Atlas, era a primeira vez que a palavra "Atlas" aparecia impressa para descrever tal obra.

Assim como o relógio portátil tornou o tempo do mundo acessível a toda a gente, assim também milhões de pessoas puderam compartilhar uma visão do espaço do mundo quando os Atlas se tornaram portáteis. No princípio do século XVIII, o geógrafo do rei Luís XV de França queixou-se na introdução que fez ao Atlas de poche, à l'usage des voyageurs et des officier ("Atlas de bolso, para uso de viajantes e funcionários") (Amsterdão, 1734-1738) de que os atlas de tamanho grande, in-fólio, tinham "tal preço que muitos estudiosos estão impossibilitados de os poderem adquirir". "Devido ao seu tamanho (...) estão, por assim dizer, pregados à estante, geralmente adornados com uma encadernação muito apropriada (...) exibimo-los na nossa biblioteca mais como um ornamento decorativo do que como um instrumento utilizável (...) e eu conheço indivíduos que nunca tiraram proveito do dinheiro que esses Atlas lhes custara." Uma vez dadas as suas provas pelos Atlas do Mundo in-fólio, começaram a aparecer Atlas portáteis de preço acessível. O grande Atlas de Mercator foi publicado em formato mais pequeno, como Atlas minor, em pelo menos 27 edições, incluindo uma em turco. O Theatrum de Ortelius apareceu muito antes, em diversas línguas, em mais de 30 epítomes em formato de bolso. Os europeus interessados podiam, enfim, transportar na algibeira a versão mais recente da Terra.

Página seguinte


Voltar