UMA ETERNA HISTÓRIA DE AMOR


LORD NELSON

LADY HAMILTON (Emma)

Os estudiosos da vida de Nelson, os colecionadores de curiosidades e objetos pertencentes ao grande marinheiro e também os que sempre se debruçaram, interessadíssimos sobre os detalhes encantadores de seu grande amor por Emma Hamilton, sempre concordaram, afirmando que durante suas últimas e mais brilhantes campanhas, Nelson conservou em sua cabine, a bordo da "nave-almirante", um retrato de Lady Haminton, que considerava o seu mais precioso tesouro e ao qual se referia como sendo o seu "Anjo da Guarda".
Esses mesmos estudiosos e colecionadores sempre se atormentaram procurando descobrir, entre todos os retratos de Lady Hamilton, qual era o do "Anjo da Guarda", que se encontrava ainda em sua cabine poucas horas antes de Trafalgar e que fora envolvido por um longo e apaixonado olhar de Nelson, antes do mesmo começar a escrever o codicílio (alteração de um testamento por disposições adicionais a ele) de suas últimas vontades.Conforme pesquisas do nosso almanaque virtual, os fatos parecem refletir que o verdadeiro retrato é esse que posicionamos do lado esquerdo.

É um retrato a pastel de autoria de Joahnn Heinrich Schmidt, pintor da corte do rei da Saxônia, produzido em 1800, quando os Hamilton e Nelson passaram por Dresden. Consta que também Lord Nelson pousou para Schmidt; é interessante relatar que conforme os especialistas, Lady Hamilton tem no peito a comenda da ordem maltesa de São João de Jerusalem. Consta que as dimensões desse retrato são de 11 x 8 3/4 de polegada.

Ao encerrar seu famoso Comando do Mediterrâneo em 1800, Nelson transportou seu pavilhão de almirante para Leghorn, onde se reuniu a varias pessoas de destaque, suas amigas, para iniciar uma viagem de recreio. Essa caravana, que podemos chamar de turística, incluía a Rainha de Nápoles, suas filhas e um séqüito de trinta e quatro pessoas: sir William Haminton, Lady Hamilton e sua mãe, Mrs. Cadogan; além desses, também miss Cornelia Knigh, cuja correspondência trouxe muita luz sobre essa viagem.

A caravana deixou Leghorn no dia 17 de julho e trinta e seis horas depois, chegava a Florença. Ali chegando trataram de cruzar os Apeninos e,próximo de Arezzo, a carruagem que transportava sir William e lady Hamilton partiu uma roda, virando e ferindo seus condutores. Sir William, com seus setenta e um anos, sofreu terrível choque e sua indisposição veio aumentar as dificuldades dessa jornada, já por si precária, devido à proximidade dos postos avançados inimigos. O mar ali se oferecia como caminho livre para Ancona, onde uma fragata imperial os aguardava. Porem, a rainha declinou ir para bordo - e com boa razão; o navio, mal levantou âncora, foi imediatamente atacado e apresado pelo inimigo. Após uma penosa madrugada em Ancona, a caravana embarcou, finalmente, protegida por um pequeno esquadrão russo, sob o comando do conde Voinovitsh e realizou fácil e calma travessia para Triestre, onde desembarcou em 9 de agosto, prosseguindo imediatamente viagem para Viena.

Na capital austríaca, para se refazer dos atropelos da primeira etapa, tiveram eles um repouso de seis semanas, parcialmente para atender ao desejo da Imperatriz (uma filha do rei de Nápoles) e também para que sir William Hamilton recuperasse suficientes forças para suportar novas fadigas. Ali, naturalmente, as festas foram inúmeras . Entre elas devemos incluir a visita que fizeram ao príncipe Esterhazy, no palácio de Eisenstadt; e o grande concerto que se seguiu, sob a direção de Haydn, cujo oratório - "A Criação" - foi escrito em honra dos visitantes. Nelson, tão entusiasmado se mostrou com o genial compositor, que lhe pediu como presente a pena com que escrevera essa maravilhosa peça musical, dando-lhe, em troca, seu próprio relógio de ouro.

De Viena, após despedirem-se de seus reais amigos, os peregrinos ingleses seguiram para Praga, onde, no fim de setembro, a hospitalidade do arquiduque Carlos não ficou aquém da que tinham conhecido em Viena. Daí, por meio de barco fluvial, foram para Dresden, onde novo repouso se tornou necessário.

Vivia então, na vizinha cidade de Leipzig, um certo poeta, chamado Kosegarten, que, no seu "Meine Freuden in Sachsen" (1801) nos dá a seguinte descrição do almirante:

"Nelson é uma das mais insignificantes figuras que já vi em toda minha vida. Seu peso talvez não passe de 70 libras. Não é possível imaginar maior coleção de ossos pontiagudos. Seu nariz atrevido (sic), olhar firme e sólida vontade, revelada por todo o seu rosto é, no entanto, um maravilhoso resumo de um grande conquistador. Fala pouco e depressa e somente em inglês. Ri com evidente esforço e apenas por cortesia. Nota-se que não tem a menor duvida sobre o seu próprio valor, porém ninguém pode deixar de se surpreender ao estudar um corpo tão mal formado. Isso, naturalmente, nada quer dizer com a grandeza que sua alma possa ter.

Apresenta-se quase sempre ostentando inúmeras ordens e estrelas. Como seu braço direito foi amputado, a manga da casaca é dobrada e presa junto da axila. Como se fosse um soberano, lady Hamilton é quem, edm geral, transporta seu chapéu. Ela parece ser como uma irmã apaixonada, junto de Nelson; segura-lhe o braço, quando caminham, aprisionando entre as suas mãos a túnica do almirante, falando-lhe às vezes, em cochichos. Nessas ocasiões, Nelson contrai os lábios como alguém que deseja conter o riso. Emma não parece ser uma dominadora e sim uma dominada, que vive a seus pés."

O pintor da corte do rei da Saxônia, em 1800, era Joahnn Heinrich Schmidt; Thieme-Becke nos diz que pintou um "pastel"de Nelson, durante a visita deste a Dresden. Os modernos cronistas, porém, estão mais inclinados a acreditar que tinha sido mais do que um pastel. A versão existente no National Maritime Museum tem a seguinte inscrição: "J.Schmidt - Feito em Dresden em 1801", o que prova que essa tela não foi terminada antes de Nelson regressar á Inglaterra. É bem possível que o retrato em questão tenha sido terminado mais tarde, mas não existe prova disso; o mais provável é que Schmidt tenha completado uma outra versão que o próprio Nelson levou em sua bagagem.

O retrato, sem revelar inspiração, mostra todos os sinais de ter sido executado sem nenhuma pressa. As medalhas e ordens estão nele apresentadas com meticulosa precisão; as medalhas de ouro e as ordens menores de Cavalheirismo, doadas pelo rei, estão passadas em redor do pescoço; a medalha de ouro conquistada pela campanha do Nilo e doada por Alexander Davison, está pregada na gola esquerda da casaca. Com maior cuidado do que os inúmeros artistas ingleses que retrataram Nelson (com ou sem poses) Schmidt procurou detalhar a diferença entre o olho esquerdo, desviado para o alto por um defeito visual, e o olho direito, sombreado por um irreparável acidente. Esse detalhe só pode ter nascido após um judicioso trabalho de observação.

O retrato reproduzido acima, mostra-nos uma lady Hamilton, conforme se apresentava em Dresden, no ano 1800, ao se aproximar dos trinta e cinco anos. Trata-se também de um pastel, trazendo uma simples assinatura:

"Schmidt-1800"

Não pode haver a menor duvida sobre sua autenticidade, como acontece com inúmeras telas de Lady Hamilton, com assinatura de Romney. Nele, apesar da natural injúria do tempo haver praticado ruínas lamentáveis, ainda é possível ler-se:

"This po (    )    amilton   was in  (    ) the B   (    ) with the virtuos gallant & heroic Nelson. He called it His Guardian Angel & thought he  not be victorious if he did not see it in the midst of Battle. He use (   )  to say under (     ) Banner I (   ) the fatal 21 st (      October  (   ) and ordered Capt (    )

A letra, sem a menor contestação, é a de Lady Hamilton e a familiaridade com seu estilo literário compensa qualquer lacuna provocada pela falta de certas palavras. A inscrição, antes de mutilada, era a seguinte:

"This portrait of Emma Hamilton was in all the Battles with the virtuous gallant and heroic Nelson. He called it His Guardian Angel; and thought he could no be victorious if he did not see it in the midst of Battle. He used to say under his Banner. I grieve (ou lament) the fatal 21 st of October when he gloriously fell and ordered Captain Hardy to bring it to me"

O retrato, portanto, possui dois grandes interesses sob o ponto de vista histórico. Antes de tudo, vem a ser uma das mais adoradas relíquias do homem admirável que livrou toda a Humanidade do gênio agressivo de Napoleão; uma relíquia para ser guardada como valioso tesouro por todos, porque era, para Nelson, o seus maior tesouro , capaz de refletir com a fidelidade de um espelho, aquela que amou tão apaixonadamente, sua adorada Emma!

Há ainda o segundo interesse, igualmente vital. Como a vasta maioria das biografias de Emma Hamilton aceitam como autentica a crônica escandalosa, pela qual um vil e anônimo caluniador a descreveu insidiosamente numa obra intitulada "The Memoirs of Emma Lady Hamilton", a imagem de Lady Hamilton, em 1805, que os artistas executaram segundo a própria imaginação, persistiu nesse aspecto, igualmente faccioso: as poses teatrais e inexpressivas, embora clássicas, de Romney ou a maliciosa e felina expressão de St. George. Quando Emma posou para Romney era apenas uma adolescente de dezessete anos, com talentos histriônicos bem acentuados e que o artista descobriu e procurou destacar.

Quando Nelson, seriamente ferido na cabeça, na Batalha do Nilo,aceitou a hospitalidade do embaixador britânico em Nápoles, a esposa do embaixador tinha o dobro daquela idade. É ridículo supor que ela tivesse conservado o mesmo semblante do trabalho de Romney, no qual o gênio de Romney desempenhou importantíssimo papel.

Entre Romney e Schmidt existe essa imensa distancia que separa o gênio da mediocridade. Schmidt - segundo prova o retrato de Nelson, pintado cuidadosamente - nos dá uma verdadeira visão de Lady Hamilton, essa mesma aparência que encantou e cativou Nelson.

Felizmente é sentimento natural dos britânicos detestar a injustiça. E, talvez esse retrato, agora melhor interpretado, possa enterrar de uma vez por todas, as mentiras odiosas da "Memoirs of Emma, Lady Hamilton" e, no futuro, dar a merecida posição a essa admirável patriota, para quem Nelson, moribundo, em palavras entrecortadas de gemidos, implorou a amizade e a proteção de seus patrícios; a pobre mulher sem amigos, que - para detrimento da honra nacional, segundo escreveu sir Geoffrey Callender - tudo sofreu de seu Governo e de seus concidadãos ... o desprezo, o exílio, a penúria e a morte.

Fonte:- Almanaque "Eu Sei Tudo", dezembro de 1943.


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